Gerúndio: de Camões ao telemarketing | Leonardo Fontenelle

Já escrevi várias vezes em meus blogs, desde 2001, sobre gerundismo, mas sempre vale à pena repetir. Entretanto, prefiro citar o colega no Software Livre, Leonardo Fontenelle que exlica da maneira ótima abaixo:

“O uso do gerúndio pode ser tão irritante que até levou a um neologismo: gerundismo. O gerúndio faz parte da língua portuguesa, tanto culta quanto popular, mas tem colecionado opositores nas últimas décadas. O governador do Distrito Federal, por exemplo, demitiu o gerúndio; e um portal de notícias propôs um Dia Sem Gerúndio. Na verdade, o problema não é o gerúndio em si, mas sim o que ele às vezes indica: falta de compromisso.

“O gerúndio é especialmente irritante quando indica futuro em andamento (vou estar enviando). Essa forma é corriqueira na língua inglesa, e por isso algumas pessoas acham que o gerúndio é uma espécie de anglicismo. Na verdade, o gerúndio sempre fez parte da língua portuguesa, e foi herdado do latim. Os Lusíadas, obra clássica da língua portuguesa, é repleta de gerúndio. Curiosamente, hoje os portugueses usam o infinitivo gerundivo (estou a escrever), enquanto os brasileiros usam a forma clássica (estou escrevendo).

“Expressões como estarei escrevendo são aceitas quando realmente indicam uma ação contínua, que se estenda por todo um período (À tarde estarei escrevendo), ou quando indicam uma ação concomitante, que acontece ao mesmo tempo que outra à qual se refira o texto (Quando você chegar estarei escrevendo). O gerundismo acontece quando o gerúndio é usado no lugar do infinitivo, ou seja, quando ao invés de dizer vou providenciar a pessoa diz vou estar providenciando.

“Como Vladimir Melo comentou, José Roberto Arruda (governador do DF) deveria ter demitido o gerundismo, e não o gerúndio. O gerundismo é usado de forma artificial para indicar gentileza e formalidade no discurso. Pior ainda, indica falta de compromisso por parte do locutor, seja por falta de autonomia, seja por falta de interesse. Enfim, o pior do gerundismo é o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência, que é justamente o que o governo do Distrito Federal proibiu no decreto.

“Seria bom podermos demitir a própria ineficiência…”

Gerúndio: de Camões ao telemarketing | Leonardo Fontenelle

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